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Muitas
pessoas atualmente comentam alarmadas sobre a crescente utilização
da Computação Gráfica e do 3D nas produções
de desenho animado, gênero que a maioria conhece como uma
arte em "2D", ou seja: desenhada na folha de papel. Será
que existe realmente um motivo fundado para tal alarmismo? Será
que realmente os animês perderão sua identidade com
a atual avalanche de "tridimensionalização"
que vislumbramos?
Creio
que não...
Cabe
lembrar aqui primeiramente, o que a história nos conta nestes
mais de cem anos de cinema por qual já passamos. A própria
história da animação é singular neste
aspecto. Mesmo antes da aparição do primeiro cinematógrafo
dos irmãos Lumière no final do século XIX,
já havia o que chamamos de "brinquedos óticos",
que eram pequenas e engenhosas peças que simulavam um movimento.
Entre eles podemos citar o "zootrópio" que consiste
de um objeto circular, que possui vários pequenos suportes,
onde encaixamos as figuras, uma ligeiramente diferente da outra,
para dar a sensação de movimento quando giramos a
base circular. Outra atração muito popular nessa época
eram os chamados "cicloramas". Era o primórdio
do atual cinema em 180º. Artistas habilidosos pintavam uma
paisagem em uma grande tela de fundo curva, para dar a sensação
de profundidade e entre esse painel e o público eram colocados
objetos reais, qua conferiam ao ambiente ainda mais profundidade
e "realismo".



Princípio
de funcionamento de um Zootrópio
Como
podemos ver com os exemplos acima, a arte da animação
e como sua extensão o cinema e a própria fotografia
(que é a mãe do cinema por assim dizer), são
essencialmente a tentativa do ser humano de representar o mundo
como ele é: com suas cores, seus movimentos, sua perspectiva
e sua tridimensionalidade.
Na
história da arte essa sempre foi uma perseguição
antiga: a busca pela representação do mundo, que foi
finalmente revolucionada com a descoberta dos "campos de fuga"
pelo artista renascentista Giotto. Até mesmo antes, na arte
medieval que é essencialmente "chapada" vemos a
tentativa da simulação da profundidade através
do uso de cores mais "quentes" e fortes nos assuntos que
estão mais na frente e com menos detalhes, com cores mais
esmaecidas e "frias" nos assuntos mais distantes.
O
que estou tentando mostrar com tais exemplos é a busca constante
do homem pela representação fiel daquilo que vê
e da perseguição pelo aperfeiçoamento de suas
técnicas de representar. Assim como ocorreu com a pintura,
com a fotografia e com o cinema, todos esses meios de representação
sofreram com o passar do tempo diversos aperfeiçoamentos.
Cada um condizente com o seu tempo. Hoje estamos no auge da era
tecnológica e nossos netos provavelmente estudarão
esta era na escola como a era da "Revolução Científica
ou Tecnológica", tal é a velocidade dos avanços
científicos que ocorrem hoje. A própria lei de Moore,
que diz que um computador dobrará sua velocidade e reduzirá
pela metade seu tamanho no prazo de um ano e meio, é uma
coisa assustadora com a qual convivemos todos os dias e nem nos
damos conta! O general Eisenwoher (principal estrategista militar
americano da época da Segunda Guerra), certamente mataria
para ter um chip de cartão de natal que toca "Noite
Feliz", coisa que jogamos no lixo atualmente!
Com
a computação gráfica é a mesma coisa.
A potência dos computadores cada vez maior, aliada a uma facilitação
dos processos de produção, levam as produtoras a utilizar
em massa este novo recurso. Nada mais normal. E vemos um nível
de realismo cada vez mais impressionante a cada dia que passa! Um
exemplo nítido é o animê Macross Zero , cujos
cenários e cenas de batalha são feitos inteiramente
em 3DCG! É impressionante ver os detalhes do céu,
do mar reluzindo a luz do sol nas ondas e refletindo no teto da
choupana desenhada em aquarela (manualmente!!).
Quem
diz que esse tipo de animação veio para banalizar
a animação convencional, comete um grande erro. Primeiro
o que é convencional hoje não é o convencional
de ontem e certamente não será o convencional de amanhã!
Segundo que é válido olharmos novamente para o passado
para ver como essas preocupações são completamente
infundadas: quando surgiu a televisão em meados dos anos
50, as mega-companhias de cinema norte-americanas icorreram no mesmo
alarmismo, pois afirmavam que a TV iria banalizar e consequentemente
acabar com o cinema, pois todos teriam um "cinema em casa".
Eles não davam, em suas previsões mais otimistas"
mais que 10 anos para que o cinema desaparecesse por completo. O
que vemos hoje? Sabemos atualmente que essa afirmação
era ridícula e totalmente infundada, pois hoje cinema e televisão
possuem seus espaços próprios e suas próprias
linguagens. Televisão jamais poderia competir com o cinema,
pois a tv é uma mídia de família, solitária,
onde o espectador fica olhando uma pequana caixa brilhante na sala
e geralmente se destraí, saindo para ir ao banheiro, para
comer algo na cozinha. Cinema não permite isso, além
de ser uma tela grande, onde existe um público ao seu redor
que reage junto ante as emoções do filme.
A
Computação Gráfica não veio para tomar
o lugar de ninguém. É apenas mais uma ferramenta disponível,
como o pincel para o pintor, a câmara para o fotógrafo,
e o lápis para o desenhista. Logicamente, como todas essas
técnicas, também tem suas vantagens e suas desvantagens.
Cabe apenas ao artista ter o bom senso de saber escolhar o meio
certo para se expressar. E na animação atual é
mais que um meio certo, pois é impensável hoje termos
a quantidade de produção na rapidez que o mercado
demanda, sem o auxílio dos computadores. Sim! Auxílio!
Porque não se esqueçam que quem está por detrás
das máquinas são seres humanos.
Além
disso, notamos que o 3D está quase sempre fazendo par com
a animação 2D. A grande maioria dos animês que
fazem uso em larga escala do 3D atuamente, o fundem com 2D. Macross
Zero e alguns episódios de Animatrix, são exemplos
nítidos disso. E atualmente eles chegaram a um nível
de perfeição que chega ao ápice da busca do
refinamento das formas tridimensionais, ajustando-as com pequenas
imperfeições para retirar o aspecto límpido
e por demais perfeito do 3D e para simular com exatidão a
natureza que tem formas assimétricas. A união do 2D
com o 3D dessa forma fica majestosa, pois o 3D chegou ao ponto em
que "imita" o 2D e se parece tanto com algo realmente
desenhado que se mistura perfeitamente ao traço dos personagens
em 2D, mesmo com as imperfeições milimétricas
do traço da mão humana (quem já teve a oportunidade
de ver de perto um acetato original sabe que é cheio de pequenas
imperfeições).
Isso
não se restringe somente ao campo da animação,
mas está presente em massa principalmente na indústria
cinematográfica americana. Um exemplo típico da mistura
de Computação Gráfica que passa completamente
despercebida aos olhos do público está no filme "Forrest
Gump". Aquela famosa peninha que voa no início do filme
é inteiramente digital, ou seja: ela não existe! Eles
conseguiram duplicar apenas um helicóptero do exército
e fizeram parecer uma revoada de dezenas de helicópteros!
Atualmente
a computação gráfica está ficando inteligente
e os artistas digitais possuem à sua disposição,
programas criados para dar a cada personagem digital um movimento
único e a reagir diferente a diversas situações
em tempo real. Isto foi utilizado em massa nas batalhas épicas
de milhares de orcs da trilogia: "Senhor dos Anéis".
Dra. Aki do filme Final Fantasy - Spirits Within:
perfeição que imita a vida e 9 meses somente para
animar cada um dos mais de 150 mil fios de cabelo!
Aqueles
que dizem que a Computação Gráfica 3D é
"muito fácil" e que ainda assim banaliza o trabalho
da arte manual (sim, ouço muita gente dizer isso), não
sabe do trabalho que dá para se realizar uma bela animação
em 3D. Sabiam, que para se animar completamente cada fio dos mais
de 150.000 fios de cabelo da personagem Dra. Aki Ross do filme de
animação Final Fantasy, se levou nada menos do que
nove meses, com uma equipe de dezenas de animadores e computadores
da classe SGI (Silicon Graphics, os mais poderosos e caros do mundo
para animação), trabalhando 24 horas?
Mas
aí me perguntam: se é tão trabalhoso, porque
prolifera tanto e se investe tanto nisso? Por vários motivos:
pelo fato do computador gerar os quadros automaticamente, isso deixa
mais tempo livre para os animadores se dedicarem a refinar outros
aspectos da animação, que não teriam tempo
se fizessem manualmente. Também é uma mídia
nova, como já disse antes, queremos aperfeiçoá-la
o máximo possível, extrair o máximo e o mais
real que conseguirmos dela. É um desafio novo! E todos nós
somos movidos a desafios. É o que faz a vida ser intensa!
Obviamente,
existem as coisas boas (as quais batemos palmas e pedimos bis) e
as coisas ruins, mal feitas (que muito provavelmente cairão
no esquecimento, apesar de haver gosto pra tudo e de existir aqueles
que cultuam o "trash"). Mas tudo na vida é assim:
tem suas vantagens e suas desvantagens. A arte 3D é assim
também, como todas as outras. E não podemos ficar
taxando-a de ruim só porque ela está progredindo com
mais rapidez que as outras. Ela tem seu espaço como todas
as outras técnicas e vai cada vez mais se aprimorar e a permear
o mercado. Não devemos temê-la como fizeram os cineastas
preocupados com a TV. Devemos sim, apreciar e valorizar as coisas
belas que tal tecnologia nos dá. Coisas que deixariam Eisenhower
de queixo caído e que nós temos a oportunidade de
vivê-las, pois fazemos parte da época que todos da
década de 50 anseava ver: as maravilhas do ano 2000. É
certo que não temos carros voadores nem apartamentos no céu,
como no desenho dos Jetsons. Mas a evolução está
aí. Não vamos fechar os olhos a isso. Vamos aproveitá-la
da mesma forma que devemos ver as formas de expressão do
passado, nunca esquecendo delas, pois são delas é
o que nós somos hoje e saudá-las é conhecer
a a história de nossos antepassados e nossa própria
história também!
Quanto
ao futuro... Quem somos nós para querer prever o futuro?
Assim como nossos avós, na década de 50, é
claro que sonhamos em vislumbrar em como seria o mundo daqui a 100
anos, pois faz parte do cerne humano. Mas podemos ter certeza que
o caminho do 3D é esse mesmo: o do constante aprimoramento.
Cada forma de expressão tem a sua própria beleza.
Eu pessoalmente amo os desenhos animados completamente feitos à
mão de Hayao Miyazaki e de seu Estúdio Ghibli. Mas
eu também fico pasmo com as proezas gráficas dos gurus
do 3D, quando conseguem extrair tão belos cenários
num programa que eu mesmo uso como o 3D Studio! E fico pensando
na evolução: nos desenhos rabiscados e com movimentos
quebrados do Piratas do Espaço, que eu tanto assisti na minha
infância até as obras de arte em movimento de um Miyazaki
hoje. É bom poder aproveitar isso tudo! Sem preconceitos.
O futuro é hoje. E o amanhã? Bom... amanhã
a gente vê!!
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